Memória Afetiva

Carmem Verônica, a Mary Montilla de "Belíssima", da Globo - Fotos: Luiza Dantas/CZN - Data: 05/04/06 - A menção dos créditos é obrigatória
Adorável perua
Carmem Verônica relembra seus áureos tempos na pele de Mary Montilla
por Fabíola Tavernard
PopTevê

 


        Qualquer semelhança entre Mary Montilla, a ex-vedete extravagante de "Belíssima", e Carmem Verônica, sua intérprete, não é mera coincidência. Principalmente no que diz respeito à voz marcante, aos trejeitos exagerados, ao passado no Teatro de Revista e à amizade de longa data com Íris Bruzzi, que vive a Guida Guevara na trama. "Eu dei vida a Mary. A maneira de falar, a gesticulação... Foi por isso que o Silvio me chamou, porque ele criou a personagem pensando em mim", gaba-se.
        Ter muitas histórias para contar é outro ponto em comum entre atriz e personagem. Carmem Verônica, aos 72 anos, lembra dos primeiros passos na carreira, com apenas 16 anos - ela usava uma carteira de identidade falsa para fingir que era maior e driblar a fiscalização. A estréia foi num "pocket show" de Carlos Machado, "Machado Apresenta", na boate do Hotel Esplanada, em São Paulo. "Esta estréia me marcou muito porque foi a realização de um sonho de infância", diz a atriz, que foi "descoberta" quando tomava sol nas areias da Praia do Arpoador, na Zona Sul carioca. Desde a infância, aliás, Carmem já escrevia shows e os coreografava no quintal de casa. "O vírus me pegou desde pequena", garante, com bom humor.
        Do sonho à realidade, Carmem destaca sua única passagem pelo Teatro de Revista, o Teatro Follies, no Rio de Janeiro. A peça, de Mário Meira Guimarães, "Doll Face", tinha Silvia Fernanda no elenco e Carmem fechava o prólogo na pele da Branca de Neve. A atriz volta no tempo e declama um trecho que costumava levar a platéia às gargalhadas: "Tenho sete bons velhinhos, dedicados e fiéis. Só que não só são anõezinhos, mas ricaços coronéis". Carmem não esconde a saudade daquela mistura de malícia e ingenuidade. "Você morria de rir e não havia um só palavrão. Depois começaram a vir coisas mais grosseiras, que eu nunca gostei", compara a atriz.
        Ao lado de todo o glamour que sempre rodeava os artistas, havia, nos anos 50, também um forte preconceito em relação ao meio artístico. Carmem conviveu com as duas coisas. Daí a enorme resistência que enfrentou por parte de sua família. "Ser artista era sinônimo de vagabunda", recorda, contando que viu várias colegas de profissão enveredarem para o "outro lado", namorando presidentes como Jânio Quadros e Getúlio Vargas – o que alimentava o preconceito. Mas, como boa integrante do grupo das "Certinhas do Lalau" - mulheres eleitas por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta -, não deixa de reforçar que, como casou-se muito cedo - e permanece com o mesmo marido até hoje -, aos poucos, reverteu a imagem. "Toda carreira tem o profissional e o genérico. E eu sempre soube conduzir a minha vida, carreira e liberdade", ensina, antes de completar. "Era melhor ser certinha do que uma porcaria qualquer", alfineta.
         "Belíssima" é a terceira experiência de Carmem Verônica em novelas – em 1993 fez "Deus Nos Acuda", também de Silvio de Abreu, e em 1965 havia feito "Ceará Contra 007", na Record. Nos anos 60, Carmem teve ainda outras passagens na tevê, em programas como "Noite de Gala", "Praça da Alegria" e "A Família Trapo". Apesar dessas experiências, Carmem ficou impressionada com a repercussão que tem obtido em "Belíssima". E por isso mesmo se mostra disposta a encarar novos papéis na tevê. "Tomara que a Mary não seja a última. Vai ser muito difícil me desligar dela. Ou melhor, ela se desligar de mim", brinca. De qualquer forma, Carmem já tem o projeto de uma peça para prolongar a bem sintonizada parceria com Íris Bruzzi quando a novela terminar. "Se eu fosse esperar mais 13 anos para me chamarem para um papel, já estaria de bengala", conclui, esbanjando vitalidade.
 

 

 

 

 

 

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